Há momentos em nossa vida que são extraordinários e nem sempre nos damos conta disto. Nossa filha do meio vai se casar. Tem sido o assunto do momento em casa. Os preparativos, as expectativas… Cada momento terá na lembrança um lugar especial.
Mas ontem fomos comprar a roupa do pai da noiva. Simplesmente um terno preto (os noivos preferiram assim). Meu filho veio nos encontrar no trabalho e saímos rumo às lojas masculinas do Shopping Center Norte.. Homens são sempre mais objetivos que nós mulheres em termos de compras, para não dizer mais impacientes.. Bem, já sabíamos que o terno deveria ser preto, então não precisava procurar muito…
Fomos direto na Garbo, porque tínhamos uma troca de presente a fazer, mas infelizmente, não foi possível ser atendido nesta loja. Por um fato operacional simples: Provadores.
Uma loja grande, reformada a pouco tempo e não tem provadores adequados a deficiente físico. Pois é. O pai da noiva é deficiente físico e por usar um aparelho ortopédico na perna (seqüela de poliomelite), precisa de espaço para se trocar. A vendedora que nos atendeu perdeu a venda de dois ternos (pai e irmão da noiva) não obstante a todas as técnicas de vendas e boa vontade por causa de um mísero provador de roupas.
Seguimos em direção a Via Veneto, loja de roupas masculinas finas. Mais um vendedor bem intencionado e elegante e mais uma decepção. Não havia espaço suficiente no provador. Ainda ficamos pensando como um cadeirante faz compras. O vendedor até sugeriu uma improvisação com cabides de roupas cobrindo a porta do provador (que não fecharia)…Não vou nem comentar a opção.
E lá fomos à Herry’s. Mais atenta, enquanto Luiz olhava a vitrine eu já ia direto aos provadores verificar a possibilidade de acomodar o pai da noiva. Mais uma loja de roupas finas e caras e sem provador adequado e com vendedoras bem pouco preocupadas. Devem ter pensado que eu era louca.
Por sorte, não precisamos ir a todas as outras lojas masculinas do Shopping. Quem sabe um outro dia eu faça esta pesquisa mais detalhada e nas femininas também.
Na Crawford a vendedora Marcia foi excepcional. Trouxe os ternos do Mezanino e tinha provador maior, mas o pai da noiva acabou optando pela Broksfield. Atendimento impecável do Francisco que antes de qualquer venda providenciou cadeiras no provador que eram um pouco maiores…mas que para um cadeirante ainda seria bem difícil. Francisco acabou vendendo para o pai e irmão da noiva. Fechou o dia bem. Engraçado que o vendedor sempre que consegue entender a necessidade do cliente, ele vende. E o cliente paga por isto…pois é, gastamos mais que podíamos.
Ainda quero lembrar que a loja melhor adequada, com provador realmente adaptado a deficiente físico foi a Vila Romana na Av. Otto Boungart, próximo ao Center Norte. Pena que o vendedor estava atendendo 2 ou 3 clientes ao mesmo tempo e o terno não era o que estávamos pensando.
Fomos para casa exaustos: Como pode tantas lojas maravilhosas ter um despreparo assim, simples. Acolher seu cliente deficiente.
Ficam algumas perguntas:
Deficiente Físico não precisa experimentar roupas?
Deficiente Físico não tem direito a privacidade?
Porque só nos preocupamos quando vivemos as experiências? Será falta de inteligência ou falta de amor ao próximo? Também reflito sobre esta questão. Sempre me questiono se me preocupo com estas questões porque sou casada com um homem deficiente físico ou se não fosse estaria atenta da mesma forma. Mas nunca terei uma resposta e acho que não importa também.

Pois é… Quantas barreiras e dificuldades que acabam prejudicando todo mundo: do meu pai que só queria um terno ao vendedor que iria para casa mais feliz pela venda.
Eu tendo a acreditar que a falta de preparo é por ignorância mesmo. As pessoas não param pra pensar em situações até que elas estejam ali, na nossa frente… E aí, bem, aí já é tarde demais.
A esperança que fica é que estes vendedores bem intencionados levem isso adiante, seja na loja em que trabalham seja na vida como um todo. Espero que estas situações acabem refletindo positivamente no dia a dia e que sejam passadas para frente. Quem sabe, desta maneira, mais cedo do que pensamos, as pessoas aprendam a respeitar o outro, seja ele como for.
Meu comentário não tem nada a ver com compra de roupas ou as dificuldades que meu amigo Luiz Fernando possa ter tido, porque sei que essas ele “tira de letra”. Quero apenas deixar de público minha admiração por esse amigo, que, sendo agente de pastoral (melhor, pastorais, porque atua em várias), nunca se encontra cansado ou usa de sua condição de deficiente físico para deixar de atender a sua comunidade e evangelizar com palavras e atitudes.
Quantas pessoas em nossa vida, “perfeitas” do ponto de vista físico, sempre arranjam alguma desculpa para não ocupar o seu lugar na construção de uma sociedade melhor e mais justa.
Parabéns Luiz Fernando, Ana Filomena e toda a família Garcia, pelo exemplo de vida! Tu vai ficar bonito de terno preto, hein?
Olá amigos,
Eu entendo muito bem o que voces passaram. Passo por essa situação constantemente. Por ter sequela de pólio e usar aparelho ortopédico quase nunca encontro provadores para experimentar minhas roupas e o que é pior, às vezes levo para casa e se não fica bem tenho que voltar a loja para trocar, sempre um motivo a mais para me deslocar de casa.
Também não encontro moda que caia bem. Ninguém se preocupam com nosso bem estar. E quando se é mulher nem se fala. Voces já viram que a moda sempre pede uma combinação de vestidos que combinam com saltinhos ou outro tipo de calçado? Claro a gente tem de viver como se pode, mas como combinar vestido com calçado uma vez que nem todos podem usar calçado normal a não ser suas botas ortopédicas? Não é o meu caso hoje, mas também já passei por isso. Hoje em dia já posso usar alguns tipos de tênis ou sapatinhos baixos, mas estes nem sempre combinam com a roupa que quero usar. Subir em ônibus, atravessar as ruas, bem nem se fala na dificuldade! E quando se falam em direit dos deficientes a mídia nos mostra sempre cadeirantes, e nós que usamos aparaelhos ortopédicos onde ficamos, será que não estamos aqui. Acham que deficientes não querem andar na moda, se vestir e provar suas roupas com dignidade, ter acesso a lojas, provar, comprar e se sentir tão normal quanto somos, cidadãos que trabalham, pagam impostos e quando querem comprar um carro dizem que há facilidades, mas na verdade é uma burocracia tremenda.
Espero que o pai da noiva, tenha ficado bem dentro de seu terno preto e que o casamento de sua filha tenha sido como o de uma princesa…
Um abraço a todos e parabéns pelo comentário.
Marilene